28 de jul de 2009

Envelhecimento, atividade física e saúde

Os efeitos do envelhecimento na aptidão física e capacidade funcional (Parahyba et al., 2005; MCGUIRE et al, 2007) têm sido bem descritos na literatura científica. Um dos efeitos do processo do envelhecimento no ser humano é a diminuição do nível de atividade física (INGRAM, 2000; AL-HAZZAA, 2007). Dados do Estado de São Paulo (MATSUDO et al, 2002) evidenciaram que o nível de sedentarismo se manteve constante (5,4% a 9,6%) nos grupos de 15-29, 30-49, 50-69 e mais de 70 anos de idade.

Os dados do Projeto “Longitudinal de Envelhecimento e Aptidão Física” (coordenado pelo Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul - CELAFISCS desde 1997) sugerem que mulheres envolvidas regularmente em atividade física mantêm o perfil antropométrico estável durante o processo de envelhecimento independente da idade cronológica (MATSUDO et al., 2002). Ao verificar a evolução de nível de atividade física das pessoas com mais de 50 anos (MATSUDO et al., 2006) foi observado que a prevalência de pessoas ativas aumentou 61% aproximadamente, enquanto a de irregularmente ativas diminuiu 60,0%.

Os dados sugeriram que a intervenção de um programa de atividade física como o Agita São Paulo pode contribuir para aumentar o nível de atividadefísica da população acima de 50 anos.

Atividade Física, Capacidade Funcional e Longevidade

Os efeitos benéficos da prática regular da atividade física no mesmo processo têm sido amplamente estudados (MATSUDO et al., 2000; NELSON et al., 2007) e incluem:

Efeitos antropométricos:
– controle ou diminuição da gordura corporal;
– manutenção ou incremento da massa muscular, força muscular e da densidade óssea;
– fortalecimento do tecido conetivo;
– melhora da flexibilidade.

Efeitos metabólicos:
– aumento do volume de sangue circulante, da resistência física em 10-30% e da ventilação pulmonar;
– diminuição da freqüência cardíaca em repouso e no trabalho submáxima e da pressão arterial;
– melhora nos níveis de HDL (lipoproteínas de alta densidade) e diminuição dos níveis de triglicérides, colesterol total e LDL (lipoproteínas de baixa densidade), dos níveis de glicose
- diminuição de marcadores anti-inflamatórios associados às doenças crônicas não transmissíveis;
– diminuição do risco de doença cardiovascular, acidente vascular cerebral tromboembólico, hipertensão, diabetes tipo 2, osteoporose, obesidade, câncer de cólon e câncer de útero.

Efeitos cognitivos e psicossociais:
– melhora do auto-conceito, auto-estima, imagem corporal, estado de humor, tensão muscular e insônia;
– prevenção ou retardo do declínio das funções cognitivas;
– diminuição do risco de depressão;
– diminuição do estresse, ansiedade e depressão, consumo de medicamentos e incremento na socialização.

Efeitos nas quedas:
– redução de risco de quedas e lesão pela queda;
– aumento da força muscular dos membros inferiores e coluna vertebral;
– melhora do tempo de reação, sinergia motora das reações posturais, velocidade de andar, mobilidade, e flexibilidade.

Efeito terapêutico:
– efetivo no tratamento de doença coronariana, hipertensão, enfermidade vascular periférica, diabetes tipo 2, obesidade, colesterol elevado, Osteoartrite, claudicação e doença pulmonar obstrutiva crônica;
– efetivo no manejo de desordens de ansiedade e depressão, demência, dor, insuficiência cardíaca congestiva, síncope, acidente vascular cerebral, profilaxia de tromboembolismo venoso, dor lombar
e constipação.

Um dos aspectos mais fascinantes é a relação entre o exercício, atividade física e a longevidade (SUNDQUIST et al., 2004; MANINI et al., 2006; INOUE et al., 2006) sendo que os estudos mostram de forma geral que os indivíduos que eram fisicamente ativos apresentam um menor risco de mortalidade por todas as causas do que os fisicamente inativos. Da mesma forma, foi encontrado que o nível de condicionamento físico em idosos é um fator preditor de mortalidade independente da adiposidade abdominal ou total (SUI et al., 2007). Alguns estudos têm procurado verificar a relação entre o nível de atividade física e a capacidade funcional e outros parâmetros de saúde (CAWTHON et al., 2007; SHUMWAY-COOK et al., 2007; MALMBERG et al., 2006; BOYLE et al., 2007; PATEL et al., 2006).

As conclusões mostram que a AF no tempo livre realizada em pouca quantidade, em intensidade leve duas vezes ou mais na semana e de atividades de condicionamento realizadas menos de três vezes por semana foram associados com maior risco futuro de dificuldades na mobilidade de adultos e idosos. O risco de doença de Parkinson também tem sido associado à atividade física. Estudo com mais de 125.000 sujeitos (CHEN et al., 2005) mostrou que a atividade física na idade adulta jovem foi inversamente relacionada com o risco de Parkinson (60% menos risco nos homens que realizavam atividade física vigorosa mais de 10 meses por ano).

Um dos dados mais intrigantes da relação da atividade física e longevidade veio da evidência que o estilo de vida sedentário tem um efeito no cumprimento dos telômeros dos leucócitos e, portanto, pode acelerar o processo de envelhecimento (CHERKAS et al., 2008). Com base em todos os dados expostos anteriormente podemos inferir que as evidências epidemiológicas disponíveis sugerem fortemente uma associação inversa entre atividade física e mortalidade. Dessa forma, os dados apóiam a necessidade do estímulo da atividade física regular especialmente após os 50 anos de idade, visto que é a manutenção da atividade física regular ou a mudança a um estilo de vida ativo que tem um impacto real na saúde e na longevidade.

Atividade Física e Saúde Mental

As evidências destacam o impacto positivo da atividade física regular em aspectos cognitivos, na saúde mental e bem estar geral do individuo durante o processo de envelhecimento. Alguns destacam o efeito da atividade física, mais especificamente da caminhada, na diminuição do risco de demência vascular (RAVAGLIA et al., 2007) entre outros, assim com a existência de menor declínio cognitivo naqueles com hábitos saudáveis (BARNES et al., 2007).

O exercicio pode elevar o BDNF (brain-derived neurothropic factor) e outros fatores de crescimento, estimular a neurogênese, mobilizar a expressão de genes que beneficiam o processo de plasticidade cerebral, aumentar a resistência do cérebro ao dano, melhorar a aprendizagem e o desempenho mental (COTMAN 2002). Alguns estudos experimentais demostraram o efeito do exercício na regeneração axonal de neurônios (MOLTENI et al., 2004) e na indução de neurogênese (PEREIRA et al., 2007) O efeito de treinamento de força muscular na cognição de idosos também tem sido analisado por alguns autores (LACHMAN et al., 2006; ROGERS, 2008; FERRIS et al., 2007; LEVINGER et al., 2008; ROLLAND et al., 2007). Os achados destacam a relação entre a perda de força muscular e o risco de demência e Doença de Alzheimer, mas, por outro lado, apontam o impacto positivo do aumento de força muscular na memória e nas funções cognitivas.

Orientação da Atividade Física

A recomendação de atividade física para a saúde durante o processo de envelhecimento ou para o idoso segue as mesmas linhas de recomendação para a população geral (NELSON et al., 2007; PATE et al., 1995). A recomendação de atividade física e Saúde Pública no idoso enfatiza quatro aspectos chave para a promoção de um envelhecimento saudável:

1. Atividades aeróbicas: para a promoção e manutenção da saúde o idoso deve realizar atividades aeróbicas de intensidade moderada pelo menos 30 minutos diários em cinco dias da semana que tem sido a recomendação usada desde 1996 pelo Programa “Agita São Paulo”.

2. Fortalecimento muscular: exercícios com peso realizados em uma série de 10-15 repetições, de 8 a 10 exercícios que trabalhem os grandes grupos musculares, de dois a três dias não consecutivos.

3. Flexibilidade: atividades de pelo menos 10 minutos com o maior número de grupos de músculos e tendões, por 10 a 30 segundos; em 3 a 4 repetições de cada movimento estático, todos os dias de atividades aeróbicas e de fortalecimento.

4. Equilíbrio: exercícios de equilíbrio três vezes por semana.

Conclusão

A atividade física regular tem um papel fundamental na prevenção e controle das doenças crônicas não transmissíveis, melhor mobilidade, capacidade funcional e qualidade de vida durante o envelhecimento. É importante enfatizar, que tão importante quanto estimular a prática regular da atividade física aeróbica, de fortalecimento muscular, do equilíbrio, as mudanças para a adoção de um estilo de vida ativo são parte fundamental de um envelhecer com saúde e qualidade.


Sandra Matsudo
Exercício Físico e Envelhecimento
Doutora em Ciências pela UNIFESP – Depto Reabilitação. Coordenadora Geral do Celafiscs. Autora dos Livros: Exercício e Envelhecimento e Avaliação Fisica e Funcional do Idoso

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